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quinta-feira, 12 de março de 2009

Dica de Quadrinhos: Um francês, um brasileiro e um argentino.


Férias chegaram ao fim. Carnaval passou. Trabalho começou a todo vapor. E 2009 promete nesse sentido.

Minhas postagens aqui vão diminuir muito. Mas ainda tenho tempo pra postar algumas coisas.

A dica de hoje é sobre três álbuns de quadrinhos que peguei pra ler no fim das férias, mas só acabei agora que já estou trabalhando (pra valer) há duas semanas.
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O primeiro é uma HQ francesa escrita e desenhada por Christophe Blain, que começou a ser publicada em 2001 na Europa, mas só chegou aqui em 2005. Chama-se Isaac o Pirata.

Namorei essa edição nas livrarias por muito tempo antes de comprar. O primeiro motivo foi a falta de divulgação e incentivo que os quadrinhos europeus tem aqui. O segundo foi o preço, bem caro, considerando o autor ser desconhecido no Brasil.

Bom, li resenhas bastante positivas em alguns sites e acabei achando uma promoção dessa HQ no fim de 2008. Comprei, mas ainda enrolei um pouco pra conferir. Perdi foi tempo pra descobrir uma ótima história.

Isaac é um jovem e pobre pintor judeu que mora com a noiva Alice num sobrado na Paris do início do século XIX.

Certo dia, é abordado por um homem que, se identificando como cirurgião, gosta de um de seus desenhos e o convida a conhecer seu rico e excêntrico empregador. O cirurgião oferece um bom dinheiro para manter sua noiva em troca dele embarcar num navio para pintar pro capitão só por alguns dias.

Dali há alguns dias ele se vê dentro de um navio pirata e o cirurgião lhe apresenta ao capitão, que oferece a Isaac um baú cheio dos mais finos materiais de pintura caso ele se junte a tripulação faça desenhos e pinturas das viagens. Isaac não vê muita alternativa e logo se descobre indo às distantes Américas e, mais tarde, ao inexplorado continente gelado ao sul.
Enquanto isso, Alice acaba arrumando trabalho na casa de um jovem e rico viajante que é dono de uma extensa biblioteca. Ele, percebendo se tratar de uma moça letrada e educada, começa a cortejá-la, mas ela resiste. A princípio com o pensamento na volta de Isaac, que leva meses sem dar notícia. E assim a história vai.

Com um bom trabalho de detalhes em paisagens, mas com traço cartunesco (que pode estranhar a princípio) ao desenhar pessoas, o autor soube contar bem uma história de piratas que nada lembra as frenéticas aventuras de filmes de pirataria recentes.

Não leve a mal, a história tem ação sim, mas não é nada injustificado e se diferencia por mostrar mais a reação dos personagens a ela. Nesse sentido os contornos de cartum dos personagens se sobressaem ao mostrar emoções e aí sim o traço funciona que é uma beleza.

Todos os personagens são bem humanos, com características e reações próprias, o que só enriquece a narrativa. E a história, que a princípio parece seguir uma única direção, ganha novos contornos e boas reviravoltas a todo momento, se tornando uma ótima surpresa.

A edição brasileira reúne três histórias da saga de Isaac, publicadas originalmente em 2001, 2002 e 2003 e tem como ponto ruim o fato de não acabar.

Isso é explicado por um motivo: os europeus demoram a continuar suas histórias e costumam lançar poucos álbuns da mesma história por ano, ou seja, já existem pelo menos mais duas histórias lançadas lá fora que a editora brasileira não teve a coragem de lançar por aqui ainda. É uma pena.

Apesar de não ter fim, Isaac o Pirata é uma boa pedida tanto para fãs de histórias sensíveis quanto para fãs de aventura.
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A HQ brasileira é de 2008 e foi inspirada num livro do escritor Franklin Távora, O Cabeleira.

Baseado num roteiro pra cinema escrito por Leandro Assis e Hiroshi Maeda, a HQ, desenhada por Allan Alex, conta a história de um bandido que aterrorizou o sertão pernambucano no final do século XVIII.

Precursor dos cangaceiros e também personagem recorrente na literatura de cordel, José Gomes, o Cabeleira, é mostrado na HQ como um ladrão psicopata e violento que obedecia sempre as ordens de seu maldoso pai e não hesitava em matar mulheres ou crianças quando ficavam em seu caminho.
A história se passa 1786, ano em que Cabeleira e seu pai Joaquim Gomes encontram seu fim. Mas através de alguns flashbacks somos apresentados a infância de José.

Ele foi criado sozinho pela mãe até a adolescência como um garoto bom e trabalhador e, apesar de nunca ter conhecido o pai, nutria uma grande admiração por ele. Dizia a todos que o pai era um soldado caçador de bandidos até que uma noite o pai retorna ferido por um tiro.

A mãe de José só aceita cuidar dos ferimentos de Joaquim com a condição de que ele não se revele ao menino e vá embora logo que curado. Não adianta. José acaba fugindo de casa atrás do pai e caindo na vida de assaltante e matador, começando a provocar medo no sertão.

Voltando a 1786, José reencontra velhos desafetos além de sua amada de infância Luisinha, enquanto é caçado por uma força-tarefa formada por camponeses e montada pelo governador da província, após ter assaltado e agredido o bispo dentro da igreja.

Antes de ser capturado, o Cabeleira, numa passagem digna de Hollywood, sobrevive por dois dias dentro de um canavial cercado de soldados da província. E pensar que é baseado num personagem real.

A narrativa é algo a parte. Bem dinâmica e com ótimos enquadramentos e seqüências sem palavras (inspiração nos mangás ou no cinema?).
E os desenhos seguem um estilo limpo tendendo ao realista, mas com algo de caricatural.

Alguns tipos são muitos magros e outros são muito musculosos que lembram (BONS) desenhos dos quadrinhos de super-heróis. Os rostos de cada personagem são bem distintos e expressivos, conseguindo passar emoção, sem precisar de palavras. Parabéns ao desenhista Allan Alex.

O único problema da história é ela acaba muito rápido.

Na minha opinião, poderia ter rendido bem mais se alguns personagens fossem mais explorados.

Mas no geral, acho que poderia sim resultar em bom filme nacional.
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A terceira HQ é Argentina e foi publicada inicialmente em 1968.

Escrita por Hector Oesterheld, desenhada por Alberto Breccia e finalizada por seu filho Enrique, conta a história de Ernesto “CHE” Guevara desde a infância na Argentina até a morte na Bolívia em 1967.

A história começa já na Bolívia, na campanha final de Che. Trechos do último diário de Che preenchem os quadrinhos. Percebe-se as dificuldades, estratégias e esperanças dele na campanha. Voltamos ao passado com a infância, adolescência e juventude de Che. Vemos seu desenvolvimento até a faculdade. Volta pro presente na Bolívia. Batalhas rápidas. Selva castigando. Perde soldados. Diarréia ataca. Quase um inferno. Volta-se ao passado. Vemos mais da trajetória de Che.

E assim vai, o passado se alternando com o presente, até a prisão e morte dele na Bolívia.

É interessante notar como eles conseguiram resumir tão bem toda a trajetória de Che em pouquíssimo tempo (três meses) depois de sua morte e ainda contar uma boa história alternando-se a sua última tentativa de revolução com o passado do homem que revolucionou Cuba.

Os desenhos dos Breccia são compostos de contrastes entre branco e preto chapados quase sem contornos. Estranha a príncipio, mas logo se consegue perceber um nível de talento majestoso no traço composto de pai e filho.

O realismo dos desenhos também revela a extensa pesquisa fotográfica que deve ter sido feita por eles.

Todo o caminho até a campanha boliviana é mostrado em cenas tiradas de fotos reais ou reconstruções baseadas em depoimentos de amigos e revolucionários.

Quem já viu duas ou três fotos de Che, consegue identificar seu rosto numa boa entre os desenhos.

E as frases curtas e diretas da prosa de Hector Osterheald, alternada com discursos, cartas e palavras do próprio Ernesto Guevara e alguns amigos, conferem um tom poético a história.

Até passagens de sua primeira viagem de moto com Alberto Granado (mostrada no filme Diários de Motocicleta) estão lá.

Alguns historiadores acreditam que essa HQ teve um papel fundamental na consolidação da imagem heróica de Che na Argentina.Necessário dizer também que os autores sofreram retaliações por parte de militares da direita argentina alguns anos depois de publicada a história.

O caso mais grave foi o de Hector, considerado hoje um dos maiores roteiristas sul-americanos, que desapareceu em 1977 sequestrado pela ditadura argentina junto com suas quatro filhas. Uma grande perda para os quadrinhos mundiais e para a sociedade argentina junto com outros 30 mil pessoas desaparecidas até hoje.

Como por um milagre, restaram de sua família apenas sua esposa e seu neto (que tinha apenas três anos de idade na ocasião) para divulgar sua história e seu legado.

Uma declaração de um general argentino, publicada num jornal em 1979, diz que o sumiço de Hector se deu por ele “...ter feito a mais bela história de Che já escrita”.

Outros tempos. Outras maluquices. Que bom que ficou pra trás.

Mas nunca é demais lembrar o passado pra aprender como agir (ou não) no presente.

É isso aí. Até a próxima.

Valeu!

Um comentário:

Tatiana disse...

Opa,
Vi Isaac o Pirata num sebo e fiquei interessada. Depois da sua dica não tive mais dúvidas: comprei e li. Boa leitura, muito agradável. Os desenhos são quase...fofos!rsrs Mas são muito expressivos. Só é pena o meu livro não ser colorido.
Beijo

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